As “verdades” nossa de cada dia.

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No Brasil, neste exato momento, há muitas “verdades” – e quanto mais “verdades” há, mais difícil é entender o que corresponde (de fato) à realidade. A realidade torna-se uma espécie de opção, como em uma prova de múltiplas escolhas ao qual podemos escolher entre o que consideramos como certo em um catálogo de múltiplas respostas.

Desde que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi “conduzido coercitivamente” à sala da Polícia Federal no aeroporto paulistano de Congonhas, na última sexta-feira, eu só leio “verdades” nas redes sociais. De um lado, temos um golpe em pleno curso; de outro, nossas instituições democráticas nunca foram tão sólidas.

Entre uma e outra “verdade”, há 500 tons de informações que poderiam nos dar pistas mais claras sobre para onde nossa sociedade está caminhando. Esses, porém, não alcançam as frequências de quem apostou na radicalização e escolheu não ouvir o(s) outro(s) lado(s). Na era do “block”, do “unfriend” e do “unfollow”, estamos pregando apenas para convertidos.

Isso mesmo, gritamos aos quatro ventos as nossas ideologias e crenças como quem quer mostrar ao mundo o quanto o seu pensamento é lógico e certo. Mas o grande problema, é que todos fazemos a mesma coisa, gritamos os nossos pontos de vista, sem pararmos nem um segundo para tentar ouvir o grito do outro.

Como diriam os mais antigos, estamos vivendo na era do “samba do crioulo doido”, onde ninguém se intende em seus argumentos e ideologias. Porque para se ter ideologia, têm que haver conhecimento, e para se ter conhecimento têm que saber ouvir. E ouvir é o que a nossa sociedade menos faz.

Quanto mais feroz o ativismo, mais pobre torna-se o debate. Nada contra o ativismo, seja ele qual for, mas todo ativismo têm que haver ideais e para se ter ideais tem que haver conhecimento amplo dos fatos.

Por causa de seus pseudo-idealismos, as pessoas estão passando por cima de suas amizades – ainda que virtuais – para não abrir mão de seus pontos de vista. Desenvolveram intolerância à opinião alheia.

“A invenção da www envolveu minha crescente compreensão de que havia um grande poder em se organizar ideias de maneira livre, como uma teia”, costuma dizer Berners-Lee sobre sua invenção revolucionária. Sobre invenções, aliás, o jornalista Steven Johnson nos lembra que “estímulo não conduz necessariamente à criatividade. Colisões, sim – as colisões que ocorrem quando diferentes campos de conhecimento convergem num espaço físico ou intelectual compartilhado. É aí que verdadeiras centelhas voam”.

Essa é a realidade. Quando Steven Johnson diz que “estímulo não conduz necessariamente a criatividade ele está certíssimo. Quando convivemos somente com pessoas que pensam da mesma maneira que nós estamos nos impedindo de crescer no aprendizado das diferenças. Pois não são as concordâncias que nos farão crescer e aprender, mais sim as colisões. As colisões que acorrem quando cabeças diferentes se encontram de forma positiva e abertas ao aprendizado.

Isso vale tanto para invenções científicas como pra reflexões cotidianas – seja sobre política, inclusão social ou cinema hollywoodiano. Ambientes caóticos, como uma timeline livre de “limpezas ideológicas”, sempre serão mais ricos do que os perfis higienizados em épocas de crises e nervos à flor da pele. Quanto menos espaço damos ao contraditório, menos informação temos. E quanto menos informação, maior a ignorância.

Daí para as ofensas, bloqueios e “linchamentos” no Facebook , ou fisicamente pior, troca de socos e pontapés nas ruas, é um pulo, como temos verificado nos últimos tempos. Estamos indo da civilidade à selvageria num átimo quando o nosso “lado” é contestado. E essa tem sido uma constante assustadora. O que é o brasileiro, afinal?

Infelizmente nossas convicções se adequam a nossos interesses privados, mesmo quando tratamos de temas de interesse público. Sendo assim como não lembrar da popular expressão brasileira que diz ” a farinha é pouco, meu pirão primeiro”.

Na contramão disso tudo, muita gente tem deixado de expressar suas opiniões com relação a tudo por medo de ter colado na testa epítetos como “coxinha”, “fascista”, “pelego”, “homossexual” entre muitos outros, ou de ser alvo de alguma perseguição virtual mais grave.

Já os que, ao contrário, partem para a defesa de um lado ou outro, o fazem quase sempre de maneira absoluta, alérgicos ao que os contraria e orgulhosos das “faxinas” que eliminam opiniões diversas. Sem ter suas próprias crenças colocadas em perspectiva, o que resta é um crescente fanatismo.

Portanto, ouçamos Steven Johnson: sem colisões (de ideias!, não de tapas), não há crescimento. Apenas verdades absolutas. Apenas certezas fatais. Apenas uma triste polarização que incomoda e assusta.

Vivemos em uma sociedade de confrontos de humanidades tão diversas, que não se misturam. Ambas verdadeiramente tão ignorantes, mas que não deixam de impor entre elas uma intolerância mortal. Como indígenas e colonizadores. Como “petralhas” e “coxinhas”.

E assim, o Brasil é hoje puro coração, mas seu futuro está em xeque. Nossa cordialidade sempre ocultou uma violência, que pode se tornar extrema em momentos delicados como o que vivemos agora. É hora de deixar um pouco da lado o coração e dar ouvidos à razão.

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