Robert Scheidt, o maior medalhista olímpico brasileiro


Maior campeão olímpico brasileiro, Scheidt chega aos Jogos do Rio como o iatista mais velho da classe laser e decidido a quebrar seus próprios recordes

Aos 43 anos, Robert Scheidt ainda se apega a superstições antes de competir. Leva sempre consigo um cavalo de xadrez encontrado há 20 anos numa praia de Florianópolis, escreve a palavra “raça” nos mastros de suas embarcações e se nega a fazer a barba durante os dias de prova. Um desavisado poderia até imaginar que ele crê que o sobrenatural o ajuda na carreira. Não exatamente. Criado no bairro do Brooklin, em São Paulo, Scheidt é pragmático, metódico e racional, características herdadas da família de origem alemã e que foram fundamentais para que ele se tornasse o maior campeão olímpico brasileiro, com cinco medalhas. Mais do que isso, é o maior vencedor do mundo na história da classe Laser, com nove títulos mundiais. Um supercampeão.

Frequentador do Yacht Club de Santo Amaro, à beira da Represa de Guarapiranga, tradicional celeiro de atletas da modalidade, ele aprendeu cedo a buscar o vento onde pouco havia. Um desafio semelhante ao da atual geração campeã de surfistas brasileiros, liderada por Gabriel Medina e Adriano de Souza, que teve de se desenvolver em ondas pequenas para só depois encarar a perfeição de paraísos como Indonésia e Havaí. “Na Guarapiranga o vento oscila muito. Isso acaba criando no velejador uma reação rápida às mudanças de direção, enquanto que um garoto que veleja só no mar, com vento constante, se acostuma a uma condição mais estável”, diz.

Essa habilidade, junto com o corpo de quarentão, será posta à prova nos Jogos do Rio de Janeiro, sua sexta Olimpíada. Um desafio que por pouco Scheidt não teve condições de encarar. Por quase um ano, depois de anunciada a extinção da classe Star nos Jogos, na qual competiu nas duas últimas edições (foi prata e bronze), ele pensou que não voltaria a defender o Brasil numa competição desse porte. “Fiquei triste, frustrado, e por fim, indeciso. O que fazer? Deixar de disputar uma medalha no meu país?” A única saída era retornar à Laser.

No barco dessa classe, a mais popular do iatismo, veleja apenas um tripulante. A embarcação mede 4,23 metros de comprimento por 1,40 metro de largura. Já na Star são dois tripulantes num barco de cerca de 7 metros por 1,73 metro. Nessa última, mais técnica, o brasileiro fazia o papel de timoneiro e o parceiro e amigo de infância Bruno Prada ficava na proa, com o trabalho mais bruto. “Voltar para a classe Laser oito anos depois, competindo com jovens de 20 e poucos anos, não era uma opção atraente. Parecia uma página virada”, admite. Até que no fim de 2012, sem treinar, Scheidt participou de um campeonato na classe Laser na Itália e ganhou todas as regatas. “Foi a faísca de que eu precisava. Logo conquistei o Mundial em Omã, em 2013, e voltei a ser o brasileiro mais bem ranqueado. Pensei: ‘I am back!’. Só que não… Estou tendo de trabalhar mais arduamente do que nunca para enfrentar essa garotada.”

Seguindo a disciplina germânica da família, o atleta tem se dedicado integralmente à sua preparação. O local dos treinos foi o Lago di Garda, que banha a província de Trento, na Itália, onde vive há oito anos com a esposa e também velejadora lituana Gintare Volungeviciute, de 33 anos, e os dois filhos, Erik e Lukas. Gintare, aliás, é uma das favoritas ao ouro na classe Laser Radial no Rio. “Cheguei a pensar que teria de ficar em casa cuidando das crianças para ela focar nos Jogos”, brinca. Com cerca de 50 quilômetros de extensão, numa paisagem paradisíaca graças ao azul da água e aos Alpes italianos em volta, Garda é um dos melhores locais do mundo para a vela. “É um ponto de encontro dos velejadores europeus, treinamos com os melhores”, diz o campeão.

A vida de atleta profissional faz de Scheidt e Gintare (que se comunicam em inglês) um casal espartano. A rotina de treinos começa às 7 horas com bicicleta, academia e natação. À tarde, velejam por até quatro horas seguidas. Já em casa, uma sessão de alongamentos. Quando não estão treinando, os dois se dedicam aos filhos. “Somos muito presentes, curtimos o dia a dia das crianças. Aliás, sou um ótimo dono de casa.” Quando é preciso eles se revezam nos cuidados com os pequenos. “Em janeiro fui para a Copa do Mundo de Vela em Miami. Venci e voltei correndo para casa para ela disputar o campeonato europeu”, conta. A vida na Itália ajuda, pois várias competições são disputadas na Europa. “Fica fácil ir de carro ou despachar o barco para as competições.”

Quantas pessoas com mais de 40 anos podem, numa classe que exige tanto do físico, ainda estar velejando nesse nível?”
ROBERT SCHEIDT

No Brasil, o destino dele é Ilhabela, para onde vai desde criança com a família. É lá, e não em São Paulo, onde Scheidt diz se sentir em casa. “Quanto mais eu viajo, mais fico certo de que meu local favorito no mundo é Ilhabela. Ali vivo meus dias de caiçara. Gosto de comprar os peixes frescos dos pescadores e prepará-los em casa, comer uma pizza à noite, tomar uma cervejinha com amigos…”

Numa tarde de junho, sentado no restaurante do Yacht Club de Santo Amaro, o velejador veterano Cláudio Biekarck, de 65 anos, parece visualizar o dia em que percebeu o talento do atleta. “Na época ele velejava com um barco da classe Optimist. Devia ter uns 8 anos. Chamava atenção, pois estava sempre na água, e sempre com um chapéu branco de marinheiro”, conta Biekarck, que já foi a três Olimpíadas e conquistou duas medalhas de bronze em Pan-Americanos. Ali, pela dedicação acima da média, diz ele, já era possível prever que Scheidt seria um velejador de mão cheia. Sua primeira grande vitória foi  nas prévias para a Olimpíada de Atlanta, em 1996, ao bater o campeão mundial Peter Tanscheit na disputa da vaga nos Jogos. Já nos Estados Unidos, o brasileiro faturou uma das cinco medalhas de ouro do Brasil naquela edição.

Graças a contratos de patrocínio pontuais, conseguiu se dedicar com exclusividade ao esporte. Diferentemente do tênis e de outras modalidades, não há prêmios em dinheiro no iatismo. “Tinha pensado seriamente em colocar o diploma (é formado em administração pelo Mackenzie) debaixo do braço e começar a procurar emprego, mas um apoio aqui e outro ali me levaram para Sydney”, lembra. Scheidt foi medalha de prata na Laser. E a recompensa veio logo. Em 2001, assinou um contrato com o Banco do Brasil, até hoje seu principal apoiador. “A partir daí pude focar na carreira de velejador.” O campeão também é patrocinado pela Deloitte e é embaixador da Rolex. “Em 2008 fui promovido a embaixador ao lado de Roger Federer e Placido Domingo. É uma grande honra”, diz. A Rolex também patrocina o prêmio de melhor velejador do ano da Associação Internacional de Iatismo, semelhante ao Bola de Ouro da Fifa, o qual Scheidt venceu duas vezes antes de firmar um vínculo com a marca. Até hoje é o único brasileiro a ganhar duas vezes o título.

A pior derrota de sua carreira aconteceu em Sydney, em 2000. “Era a medalha de ouro mais ganha da vida”, lembra Biekarck. Faltando apenas uma regata, Scheidt podia chegar até em 20º lugar que ficaria em primeiro. Caso contrário, o inglês Ben Ainslie, até hoje o maior medalhista olímpico do iatismo, seria o campeão. Como um zagueiro argentino, Ainslie marcou o brasileiro do início ao fim. E Scheidt caiu na catimba e ficou em 22º lugar. Faltou experiência. “A derrota ensina mais do que a vitória. Fiquei mordido, pena que ele mudou para a classe Finn e eu nunca mais pude enfrentá-lo. Adoraria dar o troco.”

No total, ele ganhou 16 medalhas de ouro em Olimpíadas, Pan-Americanos e campeonatos mundiais. Na Star, foram duas medalhas olímpicas e quatro títulos mundiais. Segundo Scheidt, o desgaste na Laser é maior. “Quantas pessoas com mais de 40 anos podem, numa classe que exige tanto do físico, ainda estar velejando nesse nível?”, questiona. Não há mesmo precedentes de um velejador próximo aos 40 anos obter medalha olímpica na Laser. Aliás, ele será o atleta mais velho na categoria no Rio.

Desde que comecei a velejar na Baía de Guanabara a água já era suja, e nunca peguei infecção.”
ROBERT SCHEIDT

A disputa da Laser na Olimpíada acontecerá em seis dias, com duas regatas diárias. “O que vai prevalecer é a regularidade. Todo mundo vai errar, vai ter altos e baixos. E aí tem a regata final, que tem pontuação dobrada. Essa vai ser a mais importante.” A poluição da Baía de Guanabara não o preocupa. “Desde que comecei a velejar a água já era suja, e nunca peguei infecção. Já vi sofá, tubo de TV, chinelo de todo tipo boiando… Daria para montar uma loja”, brinca.

No pódio ou não, o fato é que ver Scheidt em outra Olimpíada é testemunhar uma página importante do esporte sendo escrita. É como assistir a lendas como Michael Schumacher e Kelly Slater em ação. Um talento forjado nas águas e ventos calmos da Guarapiranga e que nem o enjoo do balanço do mar conseguiu vencer. Quem competiu contra ele não tem dúvidas. Diz Lars Grael, dono de duas medalhas olímpicas: “Não é um atleta convencional, é um fora de série. E os resultados recentes provam plena capacidade de vencer mais uma vez”.

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